Comunidade Electronica de Salselas

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segunda-feira, setembro 17, 2007

Partiu o Pauliteiro Amadeu Pereira

Vitima de doença súbita, padeceu em sua casa, no passado sábado, aos 86 anos, o Sr Amadeu Pereira.

Aos familiares, D. Maria Irene, Acácio e Leonel, sua esposa e filhos, deixamos a nossa mágoa e profundo sentimento de pesar pela perda.

Homem de uma enorme bondade, cultura e sabedoria, Amadeu Pereira, foi enquanto
ensaiador dos pauliteiros, o professor e mestre de muitos jovens que com ele se fizeram homens. Mentor do actual Grupo de Pauliteiros de Salselas, foi também o garante da continuidade da tradição das danças dos pauliteiros à juventude actual, assegurando deste modo a transmissão da cultura entre gerações.
Ficará para sempre marcado o seu nome à tradição e cultura dos Pauliteiros de Salselas e de Miranda, bem como da cultura popular do Nordeste Transmontano.

Salselas ficou mais pobre, a cultura tradicional transmontana perde mais uma pedra, um marco de sabedoria e cultura popular que tomba sobre terra, mas que marcará para sempre a vida desta aldeia e de todos os salselenses.

Transcrevemos o artigo dedicado pelo escritor e poeta António Cravo a quando dos seus 78 anos num jornal regional e que melhor ilustra a personalidade deste nosso ilustre Salselense.

Amadeu Pereira e a cultura popular

Nascido em Salselas - Macedo de Cavaleiros, no ano de 1921, Amadeu do Nascimento Pereira, tendo feito um percurso simples mas exemplar para muita gente, conheceu e praticou com gosto todas as tarefas do lavrador da nossa aldeia. Desde lavrar a terra com amor; ceifar as searas com coragem à torreira do sol no pino do verão; compor com a habilidade graciosa dum escultor as medas de centeio ou de trigo nas eiras; puxar com força e jeito pelo mangual que o impertigava bem às ordens ritmadas do "capitão" da malha; e desde as cantilenas durante o coanhar do grão até aos actos culturais da nossa aldeia em que participava, é justo que em nome do mundo rural e da cultura popular lhe prestemos esta homenagem no jornal regional que ele assina e lê, com agrado, na sua pacata vida de emigrante reformado.

Para além daquelas actividades laborais, comuns a muitos aldeãos da sua época, lembramos a sua participação como bom actor do teatro popular que se foi representando em Salselas, ao longo de décadas, e que se liga ao teatro que vinha já da Idade Média, com o "Acto da Paixão" ou o "Nascimento de Jesus". Ainda nos fins do século passado se representou "O Natal" em frente da igreja da nossa aldeia, onde foi actor também José Carlos Valente, que fazia o papel de "Lavrador".
Amadeu Pereira foi também um daqueles lavradores que participou em peças teatrais com outra temática, como "Os Filhos da Miséria" em 1946; "A Bandeira Roubada" em 1950; "O Soldado da Roliça", em 1953; e "Os Fidalgos da Casa Mourisca", extraída das Obras de Júlio Dinis e representada em 1958.
Contudo, não podemos esquecer que Amadeu Pereira prestou uma grande colaboração à dança e à animação dos Pauliteiros de Salselas, através do grupo em que participou na mocidade dos anos quarenta e os grupos que ele próprio criou e animou até à década de noventa.
Foi este salselense que deu continuidade à herança que recebeu de Félix Ventura Tiago, ensaiador dos Pauliteiros na década quarenta.

Dizia-nos Amadeu Pereira que "o homem já estava velhote e não se aguentava muito tempo connosco, quando fazíamos saídas pelas aldeias vizinhas. Foi-me pedindo que o substituísse, começando quando fomos pela primeira vez à aldeia de Veigas-Bragança, nos fins dos anos quarenta". Continuando a recordar a sua paixão pelos Pauliteiros, disse-nos ainda: "Eu gostava muito daquelas danças e desde pequenino que as via dançar e ia atrás do grupo daquele tempo, às "carrichas" dum criado dos meus pais".

Graças a esta familiaridade que teve com os Pauliteiros, desde a sua infância, decidiu então participar no grupo criado por Félix Ventura Tiago e depois, em consequência disso, criou nos anos cinquenta o seu primeiro grupo, composto por oito elementos e um suplente. Eram os jovens de menos de vinte anos que se seguem:

Valeriano Escaleira;

João Jerónimo Ochoa;

José Cunha;

João Prada;

Belarmino Pires;

Augusto Rodrigues;

Fernando Rodrigues;

João Dias e

Nuno Anes.

Do grupo musical de acompanhamento, faziam parte, Manuel Alberto Gonçalves, tocador da gaita-de-foles; Armindo Dias, tocador de violão; Armelim Ochoa, tocador de guitarra; Luís Baptista, tocador de bandolim; António Prada, tocador do bombo; e Tiago Lito, tocador dos ferrinhos. Virgílio Almendra era o porta-bandeira.

Estes dois grupos tocaram e dançaram para o ensaiador no dia do seu casamento em 1956, como que a dizer-lhe obrigado.

Quando, mais tarde, Amadeu Pereira se encontrou em França, na Região Parisiense, também criou com outros salselenses e ensaiou o primeiro grupo de Pauliteiros naquele país de acolhimento dos nossos emigrantes, que muito contribuiu para a divulgação da cultura mirandesa em França, e que foi bastante apreciado pelos Franceses, como tivemos ocasião de observar durante a exibição na cidade de Clichy, nos arredores de Paris.
Depois do seu regresso à terra natal, voltou a organizar outro grupo em 1986, que durou até princípio da década de noventa.
É também justo salientar que foi graças ao seu constante empenhamento por esta dança especial da nossa terra que os Pauliteiros tiveram continuidade até ao bom grupo que existe actualmente, agora com outras iniciativas.
Por isso, Salselas em particular e a cultura mirandesa em geral podem prestar o seu reconhecimento a este Pauliteiro que tudo fez pela sua preservação, dentro da cultura popular da nossa aldeia.
Amadeu do Nascimento Pereira merece bem a estima de todos nós.

e que DEUS O TENHA A SEU LADO...