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domingo, março 14, 2010

A Velha foi Serrada Novamente em Salselas

Hoje em Salselas foi dia de "Serrar a Velha"

Ápos longos anos de ausencia, retoma-se esta tradição do meio da quaresma, que volta de novo a aldeia de Salselas, e faz ecoar na negritude da noite escura e fria de inverno, os gritos da agonia da velha, e dos seus discipulos.
Muitas velhas nesta noite tremeram debaixo dos seus lençois com o medo do serrote...

Esta tradição pagã, muito enraizada nas tradiçoes do interior portugues, que ocorre no meio do periodo da quaresma, já há muitos anos que não se fazia na nossa aldeia, no entanto a mocidade resolveu recuperar a tradição e retomar os laços da tradição e da cultura desta aldeia. a ultima vez que tal aconteceu ainda foi pela mão do tio Jaime "o Gaio", e pela mocidade dos anos setenta, já para lá vão mais de trinta anos.

Deixo aqui um pouco de historia acerca desta tradição portuguesa que tambem se manifestava nas ex-colonias portuguesas, sobretudo no Brasil, onde é possivel encontrar vasta bibliografia acerca deste assunto.








"Ernesto Veiga de Oliveira em festividades Cíclicas em Portugal, diz:" Na Zona Sul do ocidente Europeu, na Itália, França, Espanha e Portugal existe um costume que se realiza a meio da Quaresma e é conhecido pelo nome de "Serra da Velha".

"A Serra da Velha" é uma tradição que já vem de há muito tempo, sendo uma das tradições mais antigas. Durante a noite juntam-se os rapazes em grupos e por volta da meia noite começa a grande algazarra.

Isto é realizado numa quarta-feira da Quaresma e serram-se aquelas mulheres de idade relativamente avançadas e solteiras, e atribuem-se-lhes os respectivos "dotes".

A tradição consiste em percorrer a aldeia em cortejo, parando à porta das "velhas a serrar". Chegando aí cantam em tom fúnebre, através de um embude, uma espécie de funil em tamanho grande e dizem:

- ESTA NOITE SERRA-SE A VELHA

- TU QUE DIZES RAPAZ, DIABO?

- SERRA-SE A VELHA ESTA NOITE .......

- ENTÃO, QUEM HAVEMOS DE SERRAR?

- HAVEMOS DE SERRAR .......... HAVEMOS DE SERRAR ......... A MARIA ALICE

- QUEM LHE HAVEMOS DE DAR?

- HAVEMOS DE LHE DAR ...... HAVEMOS DE LHE DAR ...... O FRANCISCO FREITAS

- E ELA QUERÊ-LO-Á?

- ELA QUERO-O, PORQUE TEM UMA BURRA BRANCA PARA A LEVAR À MISSA

- ENTÃO SERRAI-A ....... SERRAI-A .... SERRAI-A

E segue-se a animadíssima "algazarra" pelas ruas da aldeia para casa de outra "velha".

O Abade Baçal na obra Memórias Arqueológico-historicas refere-se à "Serra da Velha" do seguinte modo:

" Estamos no meio da Quaresma
já a páscoa vai chegando
uns dizem serra-se a velha
os outros a velha seja serrada"

As folias portuguesas da Serração das Velhas, Criticavam a figura da avó pela violência dos métodos de disciplina das jovens netas por enunciarem suas falas de amor, e do constrangimento sofrido pelas as mulheres idosas, nesse dia: ficavam elas em casa, em suas alcovas, negando-se a ir para as ruas; escondiam-se até a passagem dos préstitos.

“serrava uma tábua aos gritos estridentes e prantos intermináveis, fingindo serrar uma velha, que representada ou não por algum dos vadios da banda lamentava-se num berreiro ensurdecedor[...]”

As folias da Serração da Velha apareciam na quarta-feira da terceira semana da Quaresma, dia usual de folga à penitência do jejum. Eram parte do calendário religioso da Quaresma, embora haja indicações de sua ocorrência fora desse período “e com intenção política, demonstração de desagrado, à porta de um chefe decaído ou derrotado nas eleições” Talvez a escolha dessa data contenha um pouco da vingança dos jovens ao controle dos cardápios dos dias santos em defesa das tradições das penitências, sempre exercido pelas velhas senhoras, mães, tias, avós, madrinhas na guarda do jejum.

“vida festiva pode, por um lado perpetuar, certos valores da comunidade (até garantindo sua sobrevivência) e, por outro, fazer a crítica da ordem social”.

A crítica à restrição alimentar peculiar à Quaresma era claramente sugerida durante a procissão dos Passos, numa tradução irreverente da antiga insígnia romana, SPQR para a expressão Senatum Populus Que Romanus. Esse código, em memória do sofrimento de Cristo, constava de estandartes empunhados na saída da capela da Paixão, anexa ao Convento do Carmo, rumo à igreja da Misericórdia. Na caminhada de Cristo em direção ao Calvário, a sigla romana SPQR ganhava forma de prece transformando-se na fórmula religiosa Salva Populum Quem Redimisti, sendo também usual aparecer como Salada, Pão, Queijo e Rapadura, uma referência debochada ao jejum conventual.

Durante a serração da velha, havia a quebra de jejum. então as famílias preparavam “opíparos repastos em que figuravam as mais raras e saborosas iguarias, ceias estupendas [...] sempre regadas em melhores vinhos [...].”

A criadagem, desde cedo, ocupava-se dos ambientes domésticos “compondo alfaias e ativando as cozinhas [...],” adormecidas nos longos dias de penitência, enquanto nas ruas ocorriam os preparativos para essas folias. Essa orgia alimentar rompia a austeridade própria ao jejum da Semana Santa.

O movimento das ruas iniciado por volta das 4 horas da tarde, ao som de músicas conhecidas e cantadas por todo, o homens ébrios de alegria”, em meio a um barulho infernal, distinguiam-se os versos:

Serre-se a velha, Força no serrote, Serre-se a velha, Dentro do pipote.” Tudo se passava em torno de uma pipa que ia seguindo as pegadas dos instrumentos, num “estrado tosco, rasteiro ao chão e que rola pousado sobre quatro rodas curtas mas fortes.” No interior da pipa - dizia o povo - ocultava-se uma velha já condenada ao suplício do serrote:“Esta velha tem malícia, Esta velha vai morrer; Venha ver serrar a velha, Minha gente, venha ver...” .

O homem do serrote parava à porta das residências, dançava, erguendo o serrote ou movendo-o no ventre do barril, já cortado, cantando com voz de falsete:“Serre-se a velha, Dentro do pipote...”

Os versos berrados reiteravam, como razão de suplício e morte, a repressão às falas de amor da neta. Denunciavam o poder exercido pelas mulheres mais velhas sobre as mais moças:

“Serra, serra, serra a velha, Puxa a serra, serrador, Que esta velha deu na neta, Por lhe ouvir falar de amor. Serra, ai serra! Serra a velha, Puxa, puxa, ai serrador! Serra a velha, ai, viva a neta Que falou falas de amor."

A repulsa à violência da avó e o acto de matar, a condenação e o castigo da velha anunciavam a quebra de tradições.

A Abadia do Desgoverno, em sua concepção original, era formada por um grupo de jovens com um âmbito de jurisdição e de responsabilidades festivas tido como surpreendente. Juntava jovens de diferentes paróquias, aldeões de idades próximas e moças casadoiras.

Competiam os homens entre si pelas jovens mulheres; sugerindo disputas na esfera da reprodução. Os moços das aldeias do século XV ao XVII só se casavam entre o início ou meados dos vinte anos: “o seu tempo de jeunesse era longo, e o número de solteiros em relação ao número total de homens da aldeia era muito alto”. Criticavam, principalmente, as jovens casadoiras de comportamento duvidoso e as pessoas casadas – mulheres que não conseguiam engravidar, maridos dominados por esposas e adúlteros e os viúvos, homens e mulheres, em suas segundas núpcias com jovens, sobretudo, quando havia uma grande disparidade de idade entre os cônjuges.

Embora não haja informação quanto às idades dos manifestantes, as folias além de se expressarem como uma iniciativa masculina, contêm o desejo de jovens de interferirem em favor da modificação de comportamentos de jovens mulheres nos namoros sob controle de velhas mulheres.

Os versos saudavam a imagem das que falavam falas de amor e repeliam aquela responsável pelo impedimento de tal manifestação. Reivindicavam maior liberdade de expressão para as jovens. A versalhada, longa e monótona, continha oposições entre a antiga e a nova mulher, entre o mal e o belo entre diferentes gerações de mulheres:

Serra-a pipa é rija, Serra - a velha é má; Serra – a neta é bela, Serra - serra já. Má filha, má mulher, má mulher, má sogra, má avó, por isso, no pipote em que está, espera a sua sorte.”

Contava com o apoio popular. O serrador perguntava, num dado momento, já de voz cansada:

“Que castigo ela merece, Dizei-me, senhores meus?”

Em coro, como num amplo julgamento, nas ruas e nas casas, o povo respondia:

“Serre-se a velha! Força no serrote! Serre-se a velha! Dentro do pipote!

Ao fim da brincadeira, o serrador levantava o tampo superior da pipa e tirando dele iguarias, distribuía-as sob aplausos, para a multidão aglomerada, dançando o tempo todo; não se falava mais em serrar a velha.

Esse acto final apresentava uma cena de inversão sexual: um homem barbado e cabeleira, de modos afeminados, entrava na pipa e, de lá, fazendo gestos de desalento e tristeza, mostrava-se vencido pelos desejos de liberdade e pela repulsa à violência das mulheres velhas contra as novas.

Também encontramos uma pequena descrição da "Serra da Velha" no livro" Raízes da nossa terra - Cancioneiro transmontano" editado pela delegação da Junta Central das Casas do Povo de Bragança.

Aí se diz: " no carnaval era hábito também serrar as velhas, com uma serra e um cortiço à porta das senhoras mais idosas e diziam:

"Serramos a tia Emilia
por já ser muito velhinha
a madeira que ela dá
só serve para uma aduela"

A serração das velhas comemorava a eliminação dessa figura antiga e fala a favor do surgimento de uma mulher mais libertária. Ritos menos visíveis, merecem ser avaliados, de serração ou não das velhas.

Alguns repetem a mensagem da serração das velhas, de modo oculto, numa linguagem gestual, naturalizada em práticas usuais de disciplina das relações de gênero na vida doméstica. Outros, ao contrário, homenageiam a imagem da senhora idosa como mulher de espírito, quando guardiã de tradições e cúmplice na aproximação de jovens nos assuntos de amor, em festas domésticas descritas nos romances de grande sucesso no século XIX

As velhas, nessas circunstâncias, cúmplices dos jovens nas suas aventuras de amor ou em seus projetos de vida, nunca serão serradas...

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